É claro que todo crescimento é desejado. Sinaliza desempenho, mercado aquecido e potencial de escala.
Mas, ao mesmo tempo, pode revelar fragilidades internas que, no curto prazo, ficam camufladas pela euforia dos números.
Isso é principalmente verdadeiro quando a governança corporativa, que deveria sustentar o negócio em sua evolução, não acompanha esse ritmo de crescimento e passa a ser um fator limitante para a continuidade e resiliência do negócio.
Com ampla experiência no ambiente corporativo, atuando como Advisor à frente da MORCONE, tenho auxiliado e orientado empresas, especialmente empresas familiares brasileiras a se estruturarem para chegar aos 100 anos.
Neste artigo, trago a reflexão de que crescer e sustentar o crescimento são desafios distintos. Embora relacionados, eles exigem capacidades organizacionais diferentes e níveis crescentes de maturidade na tomada de decisão.
A expansão desenfreada, quando baseada apenas em eficiência operacional, sem que processos decisórios, estruturas de controle e mecanismos de responsabilidade evoluam na mesma velocidade, tende a expor fragilidades estruturais que comprometem a continuidade do negócio.
Governança corporativa: o eixo que equilibra crescimento e sustentabilidade
Quando falamos de governança corporativa, não estamos falando apenas de conformidade ou de formalizações burocráticas.
Governança é o conjunto de princípios, estruturas e práticas que orientam como as decisões são tomadas, quem as toma, e com base em quais informações.
É o órgão que organiza a empresa não apenas para operar, mas para resistir e prosperar diante de ambientes de alta complexidade.
Dados recentes confirmam essa tendência de adoção crescente de práticas de governança no Brasil.
Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), EY e TozziniFreire Advogados, a aderência das companhias abertas brasileiras às práticas recomendadas de governança corporativa alcançou 68,2% em 2025, um aumento contínuo desde 2019 e sinal de maior atenção ao tema, ainda que muito fique por fazer em organizações privadas e em menor porte.
Outro dado relevante mostra que 86,8% dos executivos no Brasil planejam aprimorar práticas de governança corporativa em 2025, um reflexo de que lideranças reconhecem a necessidade de fortalecer estruturas internas diante de um cenário competitivo e de incertezas econômicas.
Mas por que isso importa tanto para empresas em expansão?
Crescimento operacional versus maturidade decisória
É comum que uma empresa em crescimento rápido tenha excelentes números de vendas, expansão de base de clientes e um time operacional engajado.
No entanto, essa velocidade pode mascarar decisões tomadas sem estrutura robusta de análise de risco, sem critérios claros de mérito na alocação de recursos e com pouca previsibilidade de resultados.
Enquanto a operação cresce, muitas vezes as decisões estratégicas continuam sendo tomadas com base em intuição, na experiência de um executivo ou fundador, ou em respostas reativas a desafios imediatos e não em métricas consistentes e processos disciplinados.
Essa estrutura intuitiva pode até funcionar por um tempo em empresas menores, mas tende a se deteriorar à medida que a complexidade aumenta.
É nesse momento que a governança corporativa, integrada por mecanismos formais de decisão, controles internos e estruturas de responsabilidade, se torna essencial para orientar a continuidade do crescimento sem comprometer a estabilidade.
Empresas familiares e as tensões do crescimento acelerado
Nas empresas familiares, os desafios são ainda mais complexos porque, além dos aspectos técnicos da gestão corporativa, há relações pessoais, valores e histórias familiares que influenciam as decisões.
É necessário equilibrar a tradição com a profissionalização, o legado com a adaptação, e vínculos emocionais com critérios objetivos.
Em muitos casos, encontramos situações como:
- Papéis e responsabilidades pouco definidos entre sócios e gestores;
- Falta de critérios claros para a sucessão da liderança;
- Processos decisórios concentrados em um pequeno grupo familiar;
- Dificuldade em estabelecer metas e em avaliar o desempenho de forma imparcial.
Sem uma estrutura de governança corporativa clara, esses pontos se amplificam com o crescimento e podem gerar conflitos, não apenas operacionais, mas pessoais e estratégicos.
De acordo com o estudo Tendências globais de governança corporativa para 2025, desenvolvido pela Russel Reynolds, é reforçada a importância de incorporar tensões estratégicas na governança.
Além disso, é apontado que empresas que priorizam diversidade, equidade e inclusão nos conselhos, componentes de uma boa governança, também tendem a estar mais alinhadas com práticas de sustentabilidade e responsabilidade no longo prazo.
O papel do conselho consultivo como ponte para o futuro
Uma das estruturas de governança corporativa mais transformadoras para empresas em expansão é o conselho consultivo.
Para empresas familiares e PMEs, um conselho consultivo eficaz:
- Fornece uma visão externa e menos emocional sobre temas críticos;
- Ajuda a separar decisões táticas de estratégias estruturantes;
- Amplia a diversidade de perspectivas na gestão;
- Contribui para a profissionalização da gestão, promovendo critérios, métricas e processos padronizados;
- Facilita a transição de um modelo intuitivo para um modelo orientado por dados e por governança.
A presença de conselheiros experientes, principalmente aqueles que já passaram por ciclos de crescimento e transição, ajuda a antecipar riscos e oportunidades antes que estes se tornem crises.
Esse papel é ainda mais relevante quando lembramos que muitas decisões equivocadas não acontecem por falta de boas intenções, mas por falta de espaço qualificado para reflexão estratégica.
Profissionalização da gestão como vetor de sustentabilidade
O conceito de profissionalização da gestão vai além de contratar melhores executivos e envolve:
- Definir processos claros para a tomada de decisão;
- Estabelecer métricas de desempenho e KPIs consistentes;
- Separar funções executivas de funções de controle;
- Promover transparência, prestação de contas e responsabilização;
- Incorporar práticas de governança em todas as camadas da organização.
Esse movimento não é exclusivo de grandes empresas, pelo contrário: é cada vez mais identificado como diferencial competitivo para PMEs e empresas familiares que desejam se manter relevantes e resilientes em mercados voláteis.
Aliás, essa tendência se conecta com outra grande mudança em curso no ambiente empresarial: a evolução da sustentabilidade corporativa.
Sustentabilidade e governança: dois lados da mesma moeda
Em 2026, a sustentabilidade corporativa deixou de ser uma preocupação apenas de reputação ou risco.
Esse instrumento se consolidou como um motor de estratégia. A chamada inovabilidade, onde a inovação é impulsionada pela sustentabilidade para gerar valor tangível, está redefinindo como as organizações competem, crescem e constroem vantagem competitiva sustentável.
Essa conexão entre sustentabilidade e governança não é acidental: uma governança forte incorpora princípios ambientais, sociais e de gestão responsáveis nos critérios de tomada de decisão. E empresas que conseguem integrar essas dimensões criam estratégias mais robustas e resilientes ao longo do tempo.
Crescer é fácil. Sustentar o crescimento exige governança corporativa.
Esse é o cerne do desafio atual. Crescimento sozinho não garante sucesso sustentável.
A permanência no mercado, a conquista de confiança de stakeholders, a capacidade de atravessar ciclos e a geração de valor de longo prazo dependem de estruturas de governança que acompanhem a complexidade crescente da organização.
Governança corporativa não é opcional, mas um ativo estratégico imprescindível.
E você: sua empresa está crescendo mais rápido do que sua governança consegue acompanhar?
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